Sou ou não sou idiota? Eis a questão.

<strong>Sou ou não sou idiota? Eis a questão.</strong>


Por Alexandre Macedo

Há quase dez anos quando, em uma livraria, me deparei com um livro denominado “Política para não ser idiota”, dos filósofos Mário Sergio Cortella e Renato Janine Ribeiro, me senti imediatamente impulsionado a comprá-lo e logo devorá-lo. Sabendo da autoria, me senti ainda mais provocado a levá-lo para casa, pois, recentemente, havia me deslumbrado com outro título de Cortella, desta vez em parceria com Yves de la Taille, chamado “Nos labirintos da moral”. Não conhecia Cortella e meu encanto pela sua filosofia foi paixão à primeira vista e não é à toa que hoje é um dos maiores intelectuais da sociedade brasileira. Justo, pois vivemos em uma época em que a humanidade nunca precisou tanto da filosofia (do grego “philos”=amizade e “sofia”=sabedoria). Sempre busco algum alento nesse autor quando estou intrigado com a condição humana em seus vários aspectos.

Quem já o leu sabe da importância que o filósofo dá à etimologia (estudo da origem e evolução dos conceitos) das palavras. Toda vez que quer explicar algum assunto em seus livros sempre remete a sua argumentação às origens dos conceitos e leva o leitor a perceber o quanto muitas vezes não empregamos as palavras corretamente, ou, também, por não entender seus significados, acabamos usando-as de maneira automática, sem reflexão. É interessante fazer esse teste, se ainda não fez, busque no Google o significado etimológico de palavras como: “radical”, “entender”, “felicidade”, “apartamento”, “trabalho” e por aí vai. Aposto que você vai se viciar nessas buscas ao perceber que, quando descobrimos a origem etimológica das palavras passamos a olhar de modo mais profundo o significado de cada uma delas.

E foi isso que me impactou ao abrir o livro do Cortella e logo já ir me deparando com o significado etimológico da palavra “idiota”. De acordo com o autor, a palavra idiota vem do grego “idiótes” que significa “aquele que só vive a vida privada, que recusa a política, que diz não à política”. Embora, atualmente, o conceito tenha ganhado outros significados ao longo do tempo, sua origem remete ao indivíduo particular, ou seja, aquele que vive no seu “quadrado” ignorando o fato de que não é responsável por aquilo que acontece ao seu redor, ou seja, na sua rua, no seu bairro, no trabalho, na sua cidade ou no seu país.

Confesso que o significado etimológico da palavra idiota me pegou de surpresa, pois, o que nós ouvimos é justamente o contrário. É normal alguém aconselhar: “Pare de ser idiota, não se envolva com política! Desde que o mundo é mundo as coisas são assim”. Ou então “Pare de ser idiota, política só serve para causar inimizade!”; “Política é só sujeira, deixe de ser idiota e não perca seu tempo”.

Trago esse exemplo justamente para provocá-los em relação ao verdadeiro sentido da palavra idiota. Será que estamos participando da vida em sociedade ou estamos apenas seguindo a nossa vidinha sofá x Netflix? Eu sou cidadã(o)? Participo ativamente da vida política da minha cidade ou a minha participação se limita apenas a ir no facebook e reclamar das minhas insatisfações? Eu acompanho o trabalho daqueles que elegi ou acabo nem me lembrando em que votei depois de alguns meses?

Para não levar a vida sendo idiota é preciso superar o individualismo e perceber que uma cidade é feita de gente que sonha, que trabalha cotidianamente em busca desses sonhos e que, mesmo sem saber, almeja muito que o lugar onde mora seja o melhor do mundo para se viver! Mas para isso é preciso que deixemos de ser idiotas (no sentido etimológico da palavra) e passemos a participar ativamente das atividade políticas de nossas cidades. Todas as cidades são cheias de problemas e, em todas elas, as pessoas que nela residem desejam imediatamente a solução desses mesmos problemas. Afinal, é como diz Cortella ao longo do livro:

Há uma frase de que gosto muito e que, para mim, é a expressão da presença política: “Os ausentes nunca têm razão”. Embora pudessem estar com alguma razão, eles a perdem pelo fato de se ausentarem”.

Confiar nossos anseios somente à responsabilidade de vereadores, prefeitos e secretários não seria muita ingenuidade? Ou melhor, não seria muita idiotice?

Para Vereador Alexandre 50123
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