A Política além da cordialidade

<strong>A Política além da cordialidade</strong>


Por Alexandre Macedo

A“politicagem” em cidades pequenas persiste, talvez, porque as pessoas evitam se indisporem com amigos ligados a grupos A, B, C, D, F, G, H, Y e Z e também com parentes de pessoas relacionadas a esses mesmos grupos. E no ritmo dessa engrenagem arcaica talvez nunca consigamos alcançar um patamar civilizatório desejável ou qualquer progresso político razoável. Isso precisa mudar, pois nesses lugares a tradição política míope, baseada nos ranços dos “ismos” do coronel-ismo, do clientel-ismo, patrimonial-ismo e mandon-ismo impedem as pessoas de separarem um fato político de uma questão pessoal. E as consequências dessa indistinção culminará no silêncio ensurdecedor perante às questões que deveriam ser de interesse público.

É receio demais de se indispor com o filho do vereador dono do mercado, afinal é ele quem está no caixa quando eu compro lá. É “sem jeito” demais falar isso do tio do meu amigo que foi prefeito na época. Criticar aquele negócio lá não dá, a fulana é minha freguesa aqui na loja. Com que cara eu vou saudar o irmão secretário da prefeitura lá na igreja se eu fazer essa crítica em relação à pasta dele no facebook? Blá blá blá blá e assim vai. Como se uma opinião contrária fosse pecado e qualquer debate fosse uma escândalo provocado por alguém com o diabo no corpo.

Afinal, gente boa(zinha) tem que falar baix(inho), voz suave e doce, quase como um anjo. Ráchetague #SQN! Que façamos como os advogados então: “Data venia”; Com a devida venia… Realmente, isso é categoria! Coisa de craque. Tal como a sabedoria de uma retórica de quem proclama algo tipo o sermão da montanha. O modo como se fala pode ser uma espécie de espada de dois gumes quando se tem a coragem e a sabedoria necessárias para tal.

No início do século XX o historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902–1982) já constatava essa dificuldade que o brasileiro tem de separar a vida particular da vida pública. No seu clássico livro “Raízes do Brasil” o conceito de “homem cordial” ainda ilustra com precisão a interpretação do contexto político brasileiro, principalmente a realidade das pequenas cidades do interior. O historiador, em outras palavras, entendia que o “homem cordial” é aquele que que tenta resolver as questões com simpatia, passionalidade e polidez que tendiam para uma inexistência de limites rígidos entre o público e o privado. É o tipo de política que se faz com afetos e estômago e não com a cabeça. Se alguém tenta fazer com a cabeça já vem uma voz estridente no ouvido: “Mas fulano é fanáaaaaatico demais... É polêeeeeeemico demais”…

Política séria exige impessoalidade e muita racionalidade. Só depois que conseguirmos ultrapassar o nível de distinção entre cordialidade e o cumprimento dos princípios da administração pública é que o progresso vem. Mas, convenhamos, mudar uma cultura rotulada até em propaganda de TV não é nada fácil. A cultura do “jeitinho brasileiro” já foi tema de propaganda de cigarro onde o ex-meia da seleção brasileira, Gérson, dizia no anúncio: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também”! Assim, esse jeito peculiar brasileiro ganhou o apelido de “Lei de Gérson”.

<strong>A Política além da cordialidade</strong>

Na faculdade, cursos pré-vestibulares ou preparativos para concursos públicos, os professores sempre ensinam os princípios da administração pública por meio de uma técnica de memorização considerando as iniciais de cada um deles que, ao final, faz todo o sentido, que é o LIMPE:

Legalidade; Impessoalidade; Moralidade; Publicidade; Eficiência.

Se, culturalmente, isso não for superado, se não houver uma LIMPEza para varrermos esses vícios para longe dos nossos costumes, a “política” sempre será um acordo de compadres. O fiel dessa balança é sempre o cidadão. Afinal, só o exercício da cidadania é que traz o progresso. O resto é apenas promessa dos “salvadores da pátria” saudosos de chegar a vez deles pra fazer da coisa pública a extensão de suas casas e, depois, dar um tapinha nas costas do cidadão e achar que tá tudo bem.

Coincidentemente, essa cultura política está impregnada nos locais onde a desigualdade social é mais acentuada, pois, tradicionalmente, há uma elite que sempre se achou superior à ralé, e, por isso, se acha no direito de saquear a coisa pública. Se pararmos para pensar, realmente, no Brasil não temos um Estado público, mas sim um aparato estatal apropriado pelas elites. Lembram das capitanias hereditárias? Pois é, o mais triste é pensar que o dinheiro delas pode vencer a próxima eleição em várias cidades do Brasil. Afinal, onde reina desigualdade econômica, ainda também está presente a compra de votos.

E assim segue o nosso Brasil baronil. A 9ª (nona) economia do mundo e, ao mesmo tempo, o 7º (sétimo) mais desigual. Será que algum dia essa conta vai fechar? Acredito que se fizermos o exercício de imaginar que é nas cidades que a vida pulsa e que Estado e País são a soma das cidades e, portanto, meras abstrações, talvez daremos conta que a mudança deva acontecer é no lugar que a gente mora.

E não se esqueçam! Dá pra debater e participar da política e preservar a amizade ao mesmo tempo. Separar a razão e o coração dá trabalho, mas é possível e necessário.
Ainda em tempo, feliz dia do amigo!

Para Vereador Alexandre 50123
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